Sinais de queda na oferta de boi em 2019 divide opiniões

A abundância de boi gordo no Brasil pode estar com os dias contados. No ano passado os frigoríficos de todo o país reabriram as portas em resposta à crise que estava sendo enfrentada pela líder do setor, JBS. A expectativa era de que a companhia quebrasse ou que pelo menos reduzisse sua participação no mercado, o que acabou não se concretizando visto que em pouco tempo a JBS não apenas reassumiu a liderança, como já detém cerca de 30% dos abates inspecionados do país.

Não é para menos que alguns analistas têm encarado o cenário mais adiante de forma negativa para os frigoríficos. Para os mesmos, o movimento de reabertura de abatedouros que caracterizou o último ano encurtou o ciclo da pecuária, o que deve se traduzir na piora da rentabilidade em 2019.

Frigoríficos como o Frigol que possui um faturamento de mais de R$ 1 bilhão por ano, tem deixando de lado planos de expansão e reabertura de uma unidade que estava desabilitada, também em função da forte concorrência por bovinos. No primeiro trimestre de 2018, a Marfrig Global Foods já havia relacionado a maior competição por boi como um fator de pressão sobre a margem.

O cenário que já não era muito favorável às demais empresas, pode ficar ainda pior uma vez que a reversão do ciclo da pecuária pode tornar o quadro ainda pior.

Neste ano, a margem dos frigoríficos brasileiros já não é das melhores para os períodos de maior oferta de gado. Se no ano passado o índice de margem bruta calculado pela diferença entre o preço de carne bovina no atacado e o do boi já era de 1,02% (bem próximo do bom número que é 1,05%, de acordo com o analista César Castro Alves) e chegou a bater 1,08% em abril de 2017 (maior nível registrado desde 2010), em 2018 o indicador ficou em apenas 1%.

Com base na observação do mercado e em dados como esse mencionado acima, Maurício Nogueira, sócio-diretor da consultoria Athenagro acredita que 2019 será um ano difícil para aqueles que estão no mercado interno.

Para Nogueira, os frigoríficos devem encontrar nas exportações mais tranquilidade para enfrentar o ano que está por vir, que não apenas permanecem aquecidas, como também podem trazer margens mais consistentes. Ainda de acordo com o sócio-diretor da Athenagro, a capacidade dos pecuaristas de fornecer boi pronto para o abate é menor do que a demanda da indústria, o que sustenta sua tese de um ano mais conturbado para o mercado.

A alta do preço do boi gordo ocorre quando a cotação do animal pronto para o abate se valoriza acima da inflação e Nogueira explica que a virada do ciclo acontece após dois anos de um cenário diferente, quando era mais favorável aos frigoríficos. Agora os pecuaristas precisarão reter mais vacas para aumentar o rebanho futuro e configura o atual momento em transição, do ciclo de baixa para o de alta.

Sua afirmativa se baseia na oscilação de preços percebidas entre janeiro e outubro, quando a cotação do boi gordo subiu, em média, 5,17% no país. No mesmo intervalo, o IGP-DI calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), subiu 4,93%.

Quem reforça a mensagem deixada por Maurício é Lygia Pimentel, diretora da consultoria de pecuária Agrifatto que ressalta a opinião de que a situação deverá repercutir negativamente no resultado das indústrias.

De acordo com a diretora, quando o preço do boi sobe [cenário previsto para o próximo ano], os frigoríficos têm resultados piores uma vez que o boi gordo representa, em média, 80% do custo de produção das indústrias.

Adolfo Fontes, analista do Rabobank, também já nota sinais de inversão do ciclo, embora acredite que a redução do estoque de bovinos pode até começar agora em 2019, mas será mais sensível apenas em 2020.

O analista também destaca a alta já identificada na oferta do bezerro: em Mato Grosso do Sul, o bezerro chegou a atingir R$ 1,106 mil por cabeça no meio de janeiro e recentemente já representa uma alta de 9,7%, sendo negociado por mais de R$ 1,214 mil.

Frigoríficos acreditam em um ciclo favorável no ano que vem

Para os analistas, a evolução dos abates no país é um indício de que o novo ciclo que tem se instaurado irá favorecer os pecuaristas em detrimento dos frigoríficos.

Ainda assim, a crença desses e outros analistas respaldadas em números e estudos comparativos não bastam para minimizar a expectativa de um ciclo que seguirá favorável na oferta de boi gordo em 2019.

Marcela Moura, gerente-executiva de inteligência de negócios da Minerva Foods também espera que o impacto da retenção de fêmeas apenas seja sentido em 2020, mas que em 2019 a probabilidade é que a oferta do gado bovino seja tão positiva quanto a de 2018.

O analista da MB Agro, César Castro Alves, também aposta em mais um ano de grande disponibilidade de bois, muito embora reconheça que a margem dos frigoríficos não se compara aos melhores períodos já vividos no ciclo pecuário.

Na Marfrig Global Foods, uma das que possivelmente seriam mais prejudicadas em caso de recessão do gado para o ano seguinte e segunda maior produtora de carne bovina do país, não há muito com o que use preocupar e seus principais executivos não esboçam preocupação com a oferta de gado para 2019.