A automação é a principal responsável pela perda de empregos na manufatura?

É aqui que a sabedoria convencional se engana.

Na primeira década dos anos 2000, a indústria manufatureira dos Estados Unidos eliminou empregos a taxas alarmantes e sem precedentes. Isso coincidiu com aumento nas importações, fraco crescimento nas exportações e um enorme déficit na balança comercial. As perdas significativas de emprego na manufatura mantiveram o crescimento de empregos e a participação da força de trabalho abaixo do seu potencial.

Durante a eleição presidencial de 2016, tanto o candidato republicano Donald Trump como o senador Bernie Sanders culparam o comércio e a globalização, e isso levou Trump à presidência. Mas a maioria dos economistas rejeitou tal análise, argumentando que a automação era a culpada. Reportagens na mídia normalmente tomam tal coisa como fato. Ao final de 2016, por exemplo, Binyamin Appelbaum, repórter do New York Times, escreveu: “do ponto de vista econômico, não haverá renascimento da manufatura americana, pois não houve nenhum colapso. Devido à automação, existem muito menos empregos nas fábricas.”

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Ainda assim, essa visão reflete uma leitura errada dos dados. Como discuti em um artigo recente, embora a automação esteja ocorrendo na manufatura, bem como noutros setores da economia, a evidência não dá suporte à ideia de que a automação foi a principal responsável pelo declínio brusco do emprego na manufatura após os anos 2000. Embora seja difícil definir precisamente o culpado, diversas pesquisas sugerem que economistas e especialistas estão errados em ignorar o papel do comércio nesse fenômeno, culpando unicamente as máquinas.

O colapso da manufatura

O emprego na indústria manufatureira dos Estados Unidos alcançou o pico de 19 milhões em 1979, e embora tenha caído 7% na década de 1980, manteve-se estável ao longo da década de 1990. Isso mudou após a virada do século. Entre os picos econômicos de 2000 a 2007, o emprego na manufatura caiu 20%, ou 3,4 milhões de pessoas. Ele foi duramente afetado pela Grande Recessão de 2008-2009 e reagiu levemente durante a recuperação. No total, desde 2000, o emprego na manufatura caiu 28%, ou quase 5 milhões de empregos. Hoje, existem quase 22% menos empresas nos Estados Unidos que em 2000.

Com a queda do emprego na manufatura, também caiu sua participação na economia como um todo. O Gráfico 1 mostra a representatividade (%) da manufatura no emprego e no PIB dos Estados Unidos nos últimos 70 anos. Em 1953, a manufatura correspondia a 35% do emprego no setor privado. Em 2016, tinha caído para 10%. A porcentagem da manufatura no PIB do setor privado experimentou um declínio paralelo: alcançou 33% em 1953, e em 2016 representa apenas 13%. Essas análises sugerem que, por décadas, a manufatura teve desempenho inferior ao resto da economia.

Ainda assim, quando ajustado pela inflação, o declínio relativo aparente da manufatura parece desaparecer. O Gráfico 2 mostra a produção ajustada pela inflação (conhecida como PIB real) para a indústria manufatureira e a indústria privada em geral. Ajustado pela variação de preços, o PIB real captura o crescimento na quantidade de bens produzidos nas fábricas e na economia como um todo. Por décadas, as duas cresceram aproximadamente no mesmo ritmo. Só depois da Grande Recessão que a manufatura tem crescido muito mais lentamente do que o resto da economia.

RESOLVENDO O mistério

Como essas tendências aparentemente contraditórias podem ser reconciliadas? A explicação mais comum é a seguinte: se o crescimento do PIB real na indústria manufatureira manteve o mesmo ritmo do setor privado como um todo, mas se reduziu a proporção dela no PIB do setor privado, então, os preços de bens manufaturados cresceram em ritmo menor que a inflação. Da mesma forma, se o crescimento do PIB real da manufatura é quase o mesmo que no setor privado em geral, mas o crescimento do emprego é muito lento (ou mesmo negativo), a produtividade do trabalho na manufatura deve estar subindo consideravelmente mais rápido do que a média do setor privado. Por algum motivo, os trabalhadores das fábricas estão produzindo muito mais produtos/pessoa com um custo muito menor do que os trabalhadores de outras áreas.

Muitos economistas supõem que o maior crescimento na produtividade reflete maiores taxas de automação. Logo, concluem que a automação gerou grande parte da redução no emprego da manufatura. Mesmo aqueles que apontam alguma responsabilidade do comércio nisso argumentam que o seu efeito é muito pequeno.

Existem dois grandes problemas com essa conclusão. Primeiro, a evidência é enganosa. O baixo crescimento aparente nos preços dos manufaturados, o forte crescimento na produção e os grandes aumentos de produtividade são amplamente impulsionados por uma indústria: computadores e produtos eletrônicos.

É por isso que, desde a década de 1980, as agências estatísticas tentaram justificar os grandes avanços em computadores, semicondutores e outros produtos de TI pela redução de seu preço. Os computadores e os smartphones comprados hoje são muito mais poderosos do que os adquiridos no passado. Se, por exemplo, o modelo desse ano vende pelo mesmo preço em dólar que o do ano anterior, mas tem mais funcionalidades que os consumidores desejam, seu preço real, na verdade, caiu. Logo, as agências governamentais produzem estatísticas mostrando que a produção, ajustada pelo preço, aumentou. Embora esse tipo de ajuste para melhorias de qualidade faça sentido, o resultado tem sido que os relatórios oficiais mostram níveis extraordinariamente altos de crescimento na produção real e na produtividade da indústria da computação.

Esse crescimento extraordinário distorce os números gerais. Embora a indústria da computação represente menos de 15% do valor criado pela manufatura como um todo, ela tem tido um efeito sobredimensionado sobre os números de crescimento real do setor manufatureiro desde a década de 1980. Tal fato gerou uma impressão enganosa quanto à real condição da manufatura nos Estados Unidos.

Lembre-se de que, desde 1979 a 2000, o crescimento real do PIB em manufatura foi quase o mesmo da média do setor privado (Gráfico 2). Mas o Gráfico 3 mostra que, quando a indústria da computação é retirada de ambos os conjuntos de dados, a taxa de crescimento real do PIB da manufatura é menos que a metade daquela do setor privado. Entre 2000 e 2016, o PIB da manufatura cresceu 63% da média do setor privado. Retirada a indústria da computação, a manufatura cresceu apenas 12% da média do setor privado ao longo daquele período, e se considerada a última década, ainda não se recuperou das perdas da Grande Recessão. Além disso, sem computadores, a produtividade do trabalho cresceu um pouco mais rápido na manufatura do que no setor privado em geral. Tão logo os efeitos anômalos da indústria da computação são retirados da análise, os dados não oferecem nenhuma evidência óbvia de que a automação liderou o declínio do emprego na manufatura.

Explicando o crescimento da produtividade

O segundo grande problema com a explicação popular de que a automação tem custado empregos na manufatura é que os dados sobre produtividade em si não conseguem explicar as causas do colapso do emprego na manufatura. O crescimento da produtividade em si não destrói empregos e pode ser causado por muitas coisas além da automação. Dentro da indústria da computação, por exemplo, o forte crescimento da produtividade resulta, em grande medida, de melhorias de produto geradas por P&D, e não da automação da produção.

Aumentos de produtividade também podem ser causados pela globalização. Muitas fábricas têm terceirizado muitas atividades a produtores/prestadores de serviços domésticos e estrangeiros, além de comprar componentes de fornecedores de baixo custo, normalmente, do exterior. Como mostra um estudo que realizei com outros três economistas, a terceirização para fornecedores de baixo custo aumenta artificialmente a produtividade medida do setor.

Concorrência crescente de empresas estrangeiras pode ter o mesmo efeito. Isso porque as fábricas e as indústrias fechadas pela concorrência de países de baixa renda é provavelmente mais intensiva em trabalho, e menos automatizada. Quando elas fecham, cresce a produtividade média do trabalho na indústria manufatureira dos Estados Unidos como um todo, mesmo se a produtividade em cada fábrica e indústria que permanece não tenha mudado.

MANUFATURA, COMÉRCIO E POLÍTICA PÚBLICA

A atividade manufatureira caiu tanto – representa menos de 10% do emprego nos Estados Unidos – que é sensato questionar se ela ainda importa. Sim, ela importa, pois sua cadeira de suprimentos afeta toda a economia dos Estados Unidos, tendo participação considerável dos gastos em P&D, além de afetar diretamente os níveis de emprego, produção e inovação na economia como um todo. Economistas e legisladores precisam entender as causas do declínio na manufatura se quiserem desenvolver respostas políticas adequadas. Para tal, é preciso ter um entendimento realista dos dados e conclusões de estudos rigorosos.

Estudos falharam em encontrar uma conexão clara entre automação e perda de emprego na indústria manufatureira. Robôs podem vir a substituir grande número de trabalhadores, mas até hoje tiveram pouco efeito sobre o emprego na indústria manufatureira.

Em contraste, diversos pesquisas examinando os efeitos do comércio sobre a manufatura interna desde 2000 concluiu que o comércio impactou negativamente o emprego, a produção e o investimento da manufatura. Economistas e políticos que negam os efeitos da globalização sobre a indústria manufatureira dos Estados Unidos estão impedindo um debate muito necessário e bem-informado sobre as políticas de comércio.

Notícia original: Is Automation Really to Blame for Lost Manufacturing Jobs?
Autor: Susan N. Houseman

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