A influência do descontrole financeiro em sua saúde e qualidade de vida

A falta de educação financeira e o alto endividamento são realidades preocupantes das famílias brasileiras. Além de problemas financeiros, o estresse causado pode acarretar distúrbios que afetam a saúde e a qualidade de vida de um indivíduo.

Apesar de ser tratado em inúmeros vídeos, artigos e pesquisas por profissionais especializados, ainda não é perfeitamente clara a relação entre estresse financeiro e problemas de saúde e qualidade de vida.

Por isso, entender melhor essa questão é urgente, tanto para formulação de melhores políticas públicas e análise dos impactos sociais, quanto para as empresas, bancos, corretoras ou fintechs oferecerem melhores produtos e serviços financeiros para os seus clientes.

Nesse contexto, juntamente com os pesquisadores Pablo Rogers e Guilherme Santos Souza, realizamos uma pesquisa a fim de verificar a existência de associação entre endividamento, ansiedade, depressão e a qualidade de vida de um indivíduo.

O questionário foi aplicado em uma amostra de 588 indivíduos que, após as análises, resultaram em 376 questionários válidos. Mesmo que não seja uma amostra representativa da população e as análises estatísticas realizadas ainda serem preliminares (estudo ainda em andamento), algumas conclusões são bastante intrigantes. Vamos a elas.

Endividamento e qualidade de vida

Em nossa pesquisa utilizamos o WHOQOL-Bref da Organização Mundial da Saúde, um instrumento que visa mensurar como o indivíduo avalia o seu nível de qualidade de vida por meio de 26 questões acerca de 4 domínios (físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente). Mais informações sobre este instrumento de pesquisa podem ser obtidas aqui.

Com relação aos domínios encontramos que os menores escores obtidos, em todos eles, concentram-se em indivíduos classificados como de alto risco de endividamento.

Em termos de intensidade, a força da relação é mais proeminente no caso do domínio físico, indicando que um indíviduo com maior risco de endividamento possui menores níveis de qualidade de vida relacionados à sua saúde física. Isto é, indivíduos com maiores chances de descontrole em suas finanças possuem mais problemas no que diz respeito à condição geral do seu corpo em relação a doenças e ao vigor físico.

Constatamos, ademais, que um indivíduo com uma maior probabilidade de ter dificuldade em saldar as suas dívidas possui menores escores nos outros 3 domínios da qualidade de vida (psicológico, relações sociais e meio ambiente).

Dessa forma, de maneira geral, tendo em vista que quanto maior o risco de endividamento de um indivíduo maiores as chances de ele estar com problemas financeiros, foi possível constatarmos que o nível de dívidas de um indivíduo tem relação direta com a sua qualidade de vida.

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O seu bolso e a sua mente

Em relação à ansiedade e à depressão, encontramos que quanto mais avança-se em direção ao alto risco de endividamento, mais frequentes e maiores são os níveis destas doenças no indivíduo.

Ocorre também a situação contrária, ou seja, à medida que diminuem as chances de um indivíduo ter problemas financeiros, os resultados dos níveis de ansiedade e depressão também abaixam.

Em termos de intensidade, constatamos:

  • indivíduos com nível moderado/grave de ansiedade possuem, em média, um risco de endividamento quase o dobro maior do que indivíduos com nível mínimo de ansiedade; e
  • indivíduos com nível grave de depressão possuem, em média, um risco de endividamento cerca de 70% maior do que indivíduos com nível mínimo de depressão.

Esses resultados nos possibilitaram afirmar que níveis maiores de estresse financeiro impactam – ou possuem relação significativa – em diversos aspectos da saúde mental de um indivíduo.

Conclusão

Nossa pesquisa possibilitou-nos conjecturar que à medida que aumentam as chances de um indivíduo ter problemas financeiros, aumentam também sintomas relacionados à ansiedade e depressão, além de uma piora na sua avaliação de qualidade de vida.

Diante disso, ao mostrar que indivíduos com menores tensões financeiras apresentam menores sintomas de ansiedade e depressão e melhor qualidade de vida, a nossa pesquisa sinalizou para a importância de cuidados com a saúde financeira e situações de endividamento.

Fica claro, assim, a necessidade de disseminação da educação financeira como uma forma de melhorar o controle financeiro dos indivíduos e como medida preventiva contra o aumento de desordens psicossomáticas e piora da saúde física.

Por Dany Rogers: Dany Rogers é doutor em Finanças pela EAESP/FGV, professor do curso de Administração da FACES e coordenador do Núcleo de Educação Financeira (NEF) da Universidade Federal de Uberlândia. E-mail para contato: nef@pontal.ufu.br.

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