4 erros clássicos: investidor amador não aprende nem na dor

No último artigo, falei sobre os principais tipos de riscos presentes nos investimentos. Mas ainda mais grave que os riscos, são os erros que o investidor amador comete na hora de investir. Para ilustrar, vou contar uma história.

Era uma vez um homem jovem, 35 anos, casado, chamado Carlos. Carlos era cirurgião dentista, trabalhava cerca de 10h por dia e ouviu falar que precisava investir melhor seu dinheiro.

Como Carlos era muito esperto, quis entender um pouco mais sobre o assunto antes de efetivamente buscar o caminho de como começar a investir. Foi só colocar algumas palavras-chaves no Google para ser bombardeado por uma infinidade de informações. Clicou em uma imagem onde havia um link que o direcionou a um blog. Este ofereceu-lhe um e-book que o levou a um vídeo e rapidamente, sugerências de uma infinidade de canais sobre finanças. E agora?

Após um turbilhão de informações, vídeos e anúncios, Carlos se sentiu mais confiante porque já “sabia” tudo o que deveria saber antes de começar a investir e cometeu os 4 erros clássicos do investidor amador:

  1. “Investir em ações porque renda fixa não rende nada”;
  2. “Renda fixa = Reserva de emergência = Tesouro Direto”;
  3. “Nunca investir em Fundos de Investimento porque tem taxa de administração e performance”;
  4. “Não pagar corretagem na compra e venda de ações porque algumas corretoras oferecem os mesmos ativos financeiros com corretagem ZERO”.

E aqui temos mais um cidadão aventureiro que se acha muito esperto na hora de investir e vai trocar ideias com os amigos no bar, “ajudando-os” a serem tão espertos quanto ele.

Algum tempo depois, Carlos sente que está perdido, mas não admite estar equivocado. Faz operações de compra e venda de ações sem o menor sentido, acompanha alguns materiais gratuitos, ganha e perde em suas aplicações… Mas ainda assim mantém a calma, já que aplicou uma parte dos investimentos no Tesouro,  conforme as orientações de seu YouTuber favorito.

Passado mais um tempo, Carlos descobre que será pai. Assim, sendo um investidor muito responsável, acompanha seus investimentos todos os dias e faz comentários para sua esposa,  como: “Hoje perdi cinco mil reais depois desse acidente em Brumadinho”. Um ano depois, as demandas dentro de casa começam a ser mais intensas, a esposa de Carlos detesta qualquer comentário relacionado a investimentos e ele começa a perceber que está cansado.

Não bastasse sua profissão lhe tomar muito tempo e estresse, ainda tem que lidar com o mercado que está sempre mudando. Sua caixa de e-mails está sempre lotada de anúncios sobre finanças e ele começa a refletir: “mercado financeiro não é para mim, talvez meu negócio seja investir em Criptomoedas”. E toda a história se repete…

Casos como o do Carlos são muito mais frequentes do que se imagina. Aqui no escritório, eu e os demais assessores ouvimos casos assim diariamente. Infelizmente, essas pessoas estão (quase) todas frustradas demais para querer aprender a investir da forma certa e humildes de menos para reconhecer que estavam fazendo tudo da forma errada.

Mas afinal, o que tem de errado nos 4 erros clássicos cometidos pelo investidor amador? Para elucidar a questão, elaborei uma série de 2 artigos e começo explicando aqui embaixo:

ERRO 1: “Investir em ações porque renda fixa não rende nada”:

A Renda Fixa realmente não entrega rentabilidades astronômicas, mas é um erro achar que ações entregam. Ações, exemplo de Renda Variável, têm potencial de rentabilidades acima da Renda Fixa, mas também apresenta períodos em que o valor aplicado derrete diante dos olhos, causando grande desconforto ao investidor.

Expor grande parte da carteira em ações sem um acompanhamento é a velha história de “entrar no mato sem cachorro”. Ações apresentam volatilidade e, se o investidor for pego desprevenido, o prejuízo é praticamente garantido. Na renda fixa, o investidor consegue preservar suas aplicações e alavancar seus rendimentos através de Fundos de Investimento (tema que será abordado no próximo artigo) sem expor seu patrimônio a possíveis quedas nos preços.

Além disso, é preciso saber investir em ações, ter discernimento para formar uma carteira diversificada dentro da bolsa de valores, entender a dinâmica do mercado, saber a hora de entrar e de sair de uma ação, entender que nem sempre uma ação que cai vai subir e uma que sobe pode subir mais e, ainda, deve-se estar atento aos dividendos recebidos – dinheiro parado acaba sendo “devorado” pela inflação.

Dessa forma, Carlos enquanto dentista, deveria assumir que primeiramente sua profissão é cuidar de dentes. Até o momento, nenhuma aplicação financeira vai lhe dar melhores rendimentos que seu próprio trabalho no consultório, sendo assim é perigoso acreditar que investindo ele “dobraria sua renda”.

Chegar a um patrimônio que entregue rentabilidade ao ponto de dobrar a renda do investidor é uma jornada longa e não depende apenas de investir naquilo que entrega maior rentabilidade, mas sim de ter disciplina e objetivos claros na hora de investir.

ERRO 2: “Renda fixa = Reserva de emergência = Tesouro Direto”:

Carlos entra em ação mais uma vez: resolveu investir no Tesouro para a reserva de emergência e aplicou em um Tesouro IPCA+ 2035. Por incrível que pareça, um erro clássico. Explico: é ainda muito comum o investidor achar que renda fixa trata-se apenas de Tesouro Direto, fazer uso disso apenas para reservas de emergência e ainda de forma equivocada.

O Tesouro Direto é sim a aplicação mais segura das opções de Renda Fixa, porém não é a melhor. Muitos fazem questão de aplicar no Tesouro, mas poucos sabem que existem vários tipos de aplicação. É necessário conhecê-las antes de agir!

Renda fixa é todo aquele ativo pelo qual consegue-se prever a rentabilidade que será auferida após um determinado período de tempo. Por isso, é importante sim ter aplicações em Renda Fixa, mesmo se tratando de perfis de investidor mais arrojados, porque infelizmente ninguém é imune a imprevistos.

Acima de tudo, uma carteira de investimentos não pode roubar o sono do investidor.  É primordial ter equilíbrio nas aplicações e entender que Renda Fixa não é apenas para reservas de emergência. Imagine como seria a rotina profissional de Carlos em seu consultório se, ao chegar em casa, ao invés de descansar ele “quebrasse a cabeça” no mundo das finanças?

E lembre-se: reserva de emergência precisa ter liquidez! Para aplicar em Renda Fixa, é necessário conhecer os tipos de aplicação, prazos, rentabilidade, qual o basileia do banco emissor e se há ou não cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Por enquanto, vamos ficando por aqui e no próximo artigo continuo a história de Carlos, explicando os 3º e 4º erros cometidos por ele enquanto investidor amador.