Entenda por que taxa zero não existe!

Eu já contei por aqui a história do Carlos, investidor amador, em dois artigos: Parte 1 e Parte 2, Nessa jornada de investidor, foram tantos erros cometidos que não couberam em um só texto. Entre eles, a busca incansável por “taxa zero”. Visto que esse assunto está na boca do povo, resolvi desenvolver um artigo unicamente sobre isso.

Antes de mais nada, leia a frase abaixo:

Taxa ZERO não existe 

Leia de novo, leia todos os dias até fixá-la em sua cabeça. 

Ficou claro? Acreditar na ZERO é mais ou menos como acreditar que o sachê de catchup que veio junto ao seu hambúrguer do Mc Donald’s foi de graça. Nós sabemos que você pagou por ele, mesmo que de forma indireta.

Bancos e corretoras fazendo marketing com taxa ZERO virou moda, mas pense comigo: toda a infra-estrutura de um banco ou de uma corretora tem um custo, certo? Você certamente conhece alguém que trabalha para essas corporações e irá concordar comigo:  essas pessoas vendem suas horas por um salário!

Quem paga a infra-estrutura dos bancos e das corretoras? Você, cliente, é claro. Sendo assim, entenda que mesmo se você não vê taxas, você está entregando remuneração a essas empresas e está tudo bem. Esqueça a ideia de que é de graça.

Acredito que muitos têm acompanhado o surgimento dos banco digitais, com conta corrente sem pagamento de pacote de serviços, TED ilimitada, cartão de crédito sem anuidade, saques gratuitos. Mas já percebeu que é preciso informar o CPF antes de ser aceito nesses bancos? Ou já viu falar que algumas pessoas conseguem abrir conta nesses bancos e outras não? 

Isso acontece porque, para esses bancos de “taxa ZERO” se manterem, precisam de bons pagadores. Ou seja, os clientes precisam pagar suas faturas em dia e assim eles estruturam estratégias para entregar retornos melhores em sua Renda Fixa (CDB com boa rentabilidade, por exemplo) para estimular os clientes a deixar seu dinheiro com eles. 

A grosso modo, o banco quer que seus clientes deixem seu dinheiro com ele para que ele possa emprestar esse dinheiro e ganhar juros com isso. Em troca, ele repassa algo ínfimo a seus clientes, como é o caso da poupança. A poupança não é gratuita: o banco faz dinheiro com os valores aplicados em poupança. Esse repasse baixo já acusa que, de forma indireta, você pagou pelo serviço de poupança do banco. Ainda assim, alguns bancos apresentam prejuízo e risco alto de quebrarem. 

Os bancos digitais conseguiram reduzir os custos dos serviços com a tecnologia porque podem ter clientes no Brasil inteiro com uma única agência física. E é por isso que os clientes conseguem ter acesso a serviços sem pagamentos de taxas adicionais, como é o caso de TED gratuita ilimitada. Em alguns casos, pagar taxas extras por alguns serviços do banco pode realmente não fazer sentido. Explico:

Num passado recente, você não podia consultar sua conta no banco sozinho e não havia sequer terminais de autoatendimento nas agências bancárias. As pessoas precisavam ligar ou ir até o banco para “visitar” sua conta bancária, “ver se o dinheiro ainda estava lá”, sacar dinheiro ou investir. Além disso, era necessário ir até o banco abrir a conta e ter um gerente para cuidar de tudo. 

A tecnologia têm substituído o papel de muitos funcionários do banco, é possível abrir uma conta através do celular e o próprio cliente é gerente de sua conta. Os clientes acessam sua conta, depositam e sacam dinheiro, fazem transferências, investem e pagam contas sozinhos. Além disso, quando precisa-se de suporte em situações corriqueiras, já são muitos os casos em que um robô resolve tudo. 

Sendo assim, pode fazer sentido não pagar por serviços que não são usados. Em situações de clientes de alta renda, com cartão Black, pode fazer sentido pagar pelas TEDs efetuadas no mês ou anuidade do cartão de crédito porque o serviço do banco oferece alguns diferenciais como serviço especializado, acesso a salas VIPs de aeroporto e alta pontuação em programa de milhas. 

Tudo que é pago por uma ponta deve gerar valor na outra. Sendo assim, faz sentido pagar a mais por serviços que te entregam valor. O seu cabeleireiro não vende cortes de cabelo, porque você poderia cortar em casa, ele vende o valor do serviço ao embelezar. 

Nessa linha de raciocínio, as inovações do mercado financeiro têm feito com que haja uma demanda cada vez menor por gerentes de conta e cada vez maior por assessores de investimento. Muitos, até de forma intuitiva, aprenderam a cuidar de suas contas sozinhos. Mas na hora de investir, a grande maioria tem um conhecimento nulo ou muito raso.

E sabe de uma coisa? Está tudo bem! As profissões de assessor de investimento, planejador financeiro,  gestor de carteira e analista de mercado são profissões certificadas e inúmeras pessoas trabalham 8 horas ou mais por dia, todos os dias, imersos no mundo das finanças. Estes profissionais são remunerados porque estão entregando valor para seus clientes ao aumentar o potencial de ganhos através de aplicações financeiras. 

As corretoras cobram corretagem porque precisam arcar com os custos de toda infraestrutura e pessoal que atende a seus clientes. Da mesma maneira, no quesito investimentos, todo investidor deveria reconhecer o valor de alguém para orientá-lo. 

As corretoras de corretagem ZERO oferecem essa “vantagem” porque o serviço é ZERO. Mas essa não é a maldade que está por trás delas. A grande maldade está em se vender como “democrática”, a favor da “inclusão social” na bolsa de valores quando em realidade se tornou uma fábrica de quebrar investidores. Elas cobram taxas na zeragem, mas esse é um assunto que deve ser abordado em outro artigo.

Em resumo, se aproveitam do investidor que não tem dinheiro para investir vendendo a ideia de que ele pode ficar rico fazendo operações na bolsa de valores. Só que o mal esclarecimento desse tipo de investir o faz ficar no zero a zero (perdendo para a inflação) ou perder muito dinheiro e até quebrar. 

Sem orientação, muitos acabam entrando em um ciclo vicioso de perda de dinheiro até desistir. Quando há um serviço especializado acompanhando, o assessor cumpre o papel de orientar o investidor nas operações e busca evitar ao máximo que aquele cliente quebre. já que um cliente a menos para o assessor é renda a menos para pagar as contas no final do mês.

Além disso, essas corretoras também começaram a iludir aqueles que não tem dinheiro para investir na bolsa e querem sentir o gostinho de contar para os amigos do bar que está investindo em ações. Mais uma vez, são pessoas que se acham muito espertas, dizem estar investindo a longo prazo, mas não acompanham os eventos nas ações que investem, não sabem ler os balanços das empresas, não entendem de governança corporativa e no “achismo” de que a empresa é boa, compram ações acreditando na “mágica do longo prazo”. 

O longo prazo serve enquanto a empresa tem valor e ele pode mudar ao longo do tempo. Existem ações com preço acima do valor real da empresa e isso não é algo simples de se identificar. Além disso, dê uma olhadinha no preço das ações da nossa querida petroleira nos últimos anos. Ela é um dos exemplos que os investidores de longo prazo “desavisados” deveriam tomar para si.

Quem não tem dinheiro para pagar os serviços de uma corretora na compra de ações, na realidade não tem dinheiro para ter ações. Sendo assim, o mais inteligente é começar do começo: formar uma carteira diversificada que está no seu alcance, uma reserva de emergência em Renda Fixa e começar a alavancar os ganhos através dos fundos de investimento.

Aos poucos, investir onde as taxas já estão embutidas, já que NENHUM investimento tem custo ZERO. Assim, conforme o montante for aumentando, o investidor começa a “se dar o luxo” de sofisticar seus investimentos e até entrar em operações que lhe entregam 3%, 6% ou 10% em questão de dias. 

Dinheiro chama dinheiro e todos deveriam ter acesso à educação financeira e investimentos. Porém, precisamos ser realistas e investir dentro da realidade com foco em prosperidade. Entenda que um investidor iniciante que já quer investir em ações é como um estagiário que chega querendo ocupar o cargo do presidente.

O presidente ganha muito mais pelo mesmo número de horas que o estagiário, mas para chegar nessa posição houve uma longa jornada. Com investimentos é assim, com o tempo você vai “se promovendo” a um investidor com cada vez mais potencial de rentabilidade alta em menos tempo. 

Em resumo, é preciso trabalhar duro naquilo que te dá renda, ter disciplina nas reservas financeiras e delegar as funções de analista a assessor de investimentos a quem ganha a vida sendo analisa e assessor de investimento. Estando sozinho, o investidor não consegue ter as melhores estratégias e isso é bom: na economia, precisamos uns dos outros. É necessário reconhecer o valor que cada um desempenha na sociedade em que vivemos. 

Não existem taxas ZERO e sair por aí caçando menores taxas definitivamente não é o que torna um investidor iniciante um futuro milionário. A mente milionária é visionária, mas sabe reconhecer sua realidade atual.

Saiba também reconhecer os momentos em que faz sentido pagar a mais por serviços melhores e conte com ajuda de profissionais que te entregam valor – em todos os âmbitos da sua vida.