Austeridade é a receita errada para o bem-estar humano

Descobertas sobre o impacto de uma receita de cortes pesados sobre a expectativa de vida não é uma leitura agradável.

Os curandeiros chegaram à cidade quando a economia global já tinha saído da UTI. Era 2009 e a mensagem do remédio da austeridade era simples: a única forma de recuperar a saúde era um curso de cortes pesados.

A opinião dos especialistas estava dividida. Havia outros diagnósticos disponíveis. Havia economistas que diziam que a austeridade era equivalente a retornar aos dias da sangria – mas esses perderam o debate. A prescrição, embora variasse de país para país, era quase a mesma ao redor do mundo desenvolvido: reduza os déficits orçamentários.

A conclusão era que a economia global tinha tido uma recaída e não havia se recuperado totalmente. Oficiais no FMI, que se reúnem para seu encontro anual em Bali nessa semana, por fim admitiram que subestimaram o poder da política fiscal – tributos e gastos – sobre a maximização do crescimento quando todos os países estavam passando por dificuldades e as taxas de juros já estavam próximas a zero.

E mais, como a austeridade sufocou o crescimento, foi necessário mais tempo que o esperado para reduzir os déficits orçamentários. Eleitores que tinham sido inicialmente seduzidos pela ideia de que todo mundo precisava apertar um pouco o cinto se cansaram da austeridade na medida em que as consequências de muitos anos de austeridade se tornaram cada vez mais visíveis.

Mesmo assim, o argumento entre os curandeiros da austeridade e seus oponentes continua. Está ocorrendo hoje entre Theresa May, que diz que a austeridade acabou, e o Secretário do Tesouro do Reino Unido, que diz que não. Está ocorrendo entre União Europeia e Itália. E está ocorrendo na academia, entre aqueles que acham que toda libra gasta pelo setor público é uma libra indisponível para o setor privado, e aqueles que acham que a ideia de que você pode expandir a economia através de cortes quando ela está em dificuldades é uma contradição em termos.

Tampouco esse é um debate exclusivo aos economistas. Olhares céticos surgiram entre os profissionais de saúde na semana passada quando foi divulgada a notícia de que a expectativa de vida no Reino Unido de 2015 a 2017 tinha permanecido praticamente igual que a dos três anos anteriores – a primeira vez que isso ocorreu desde a metade da década de 1980.

Dado que o início da década de 1980 também foi um época de grande recessão econômica, é inevitável a especulação de que a austeridade é a culpada pela estagnação da expectativa de vida. Na verdade, é muito cedo para chegar a essa conclusão, mas é fato que as pressões sobre o NHS têm crescido, mesmo com um orçamento reduzido. Gastos em saúde têm se estabilizado em termos reais desde 2010 – se levado em conta o crescimento da população – sendo o menos generoso em seus 70 anos de história.

Exemplos melhores do impacto da austeridade sobre a saúde são oferecidos por outros países. O tratamento de choque concedido à Rússia ao final do Comunismo no início da década de 1990 resultou em queda na expectativa de vida, em particular, entre os homens.

Recentemente, um artigo de pesquisadores da Universidade de Washington analisou o impacto da austeridade sobre a expectativa de vida na Grécia. As conclusões não são nada boas.

A Grécia, que suportou uma queda mais longa e profunda do que a Grande Depressão dos EUA, foi forçada pela chamada tróica do FMI, União Europeia e Banco Central Europeu a reduzir gastos enquanto outros países europeus seguiam o caminho oposto.

No “resgate” grego, os gastos com saúde caíram de 9,8% do PIB em 2008 para 8,1% em 2014, uma época quando a produção nacional estava caindo rapidamente. A taxa de mortalidade do país tinha crescido para cerca de 5,6% na década até 2010 mas logo passou para 17,6% nos seis anos que se seguiram. A taxa cresceu três vezes mais rápido que noutros países da Europa Ocidental.

Grande parte do aumento da mortalidade geral foi concentrada nos adultos, enquanto o artigo do Lancet destaca: “muitas das causas de morte que cresceram na Grécia são potencialmente responsivas à saúde, incluindo HIV, neoplasmos, cirroses, problemas neurológicos, doenças dos rins e diversos problemas cardiovasculares. Avanços no combate à mortalidade infantil na Grécia também estagnaram desde 2000, com aumentos nas mortes devido à doença hemolítica e sepse entre recém-nascidos desde 2010, às quais também podem estar refletindo o desempenho pior do sistema de saúde.”

Uma razão para o aumento das taxas de mortalidade pode ser uma população idosa, o que afeta muitos países como a Grécia. Isso tem sido exacerbado pela fuga de cérebros de jovens trabalhadores que buscam uma vida melhor. Contudo, o artigo do Lancet informa que o aumento na mortalidade não está apenas caindo devido à demografia, e há aumentos na morte de crianças abaixo dos cinco anos, suicídios entre adolescentes e jovens adultos, e diversos cânceres tratáveis em jovens adultos.

O programa de austeridade ajudou bancos franceses e alemães a evitarem perdas em seus empréstimos, porém à custa do aumento da mortalidade dos gregos. Isso resultou em redução de 50% no financiamento de hospitais públicos em 2015 que 2019, hospitais sem condições básicas de operação, desemprego de longo prazo tirado de seu seguro saúde e aqueles com baixa remuneração encontrando remédios mais caras devido a um corte de 20% no salário mínimo. O número de indivíduos com necessidades de saúde não atendidas quase duplicou desde 2010, com uma fração considerável reportando custos como principal razão por não receber os serviços médicos recomendados.

A Grécia não tem capacidade médica inferior a outros países. Ela tem o segundo maior número de médicos por 1000 pessoas na EU, mas essa mão de obra médica tem sido forçada a assistir impotentemente enquanto o sistema de saúde se afunda no caos e muitas pessoas morrem quando poderiam ser salvas.

Nos últimos oito anos, a Grécia tem sido usada como um laboratório experimental para testar uma teoria. A evidencia do relatório no Lancet não poderia ser mais clara. A austeridade mata.

Notícia original: Austerity is the wrong prescription for the world’s wellbeing
Autor: Larry Elliott

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