May ganhou algum tempo, mas a um alto custo

A única coisa clara sobre o Brexit é que nada está claro.

Sabendo que perderia na última segunda-feira, Theresa May resolveu postergar a votação sobre seu polêmico acordo Brexit. A humilhação foi realçada por um riso sarcástico dos parlamentares enquanto ela anunciava o adiamento, em especial, quando afirmou que ainda havia “apoio majoritário para muitos dos pontos-chave” do acordo. Mas, à medida que se aproxima o prazo final de março para a saída do Reino Unido da União Europeia, fortalece-se a pergunta de se a busca pelo acordo foi, desde o início, uma missão impossível.

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Esse atraso foi outro episódio dos muitos momentos “e agora?” desde o fatídico referendo em junho de 2016 em que os ingleses votaram “sim” (51,9% versus 48,1%) para deixar a União Europeia. Mas com o bloco mostrando pouco interesse em reabrir as negociações sobre o acordo de 585 páginas assinado com a Srta. May, as opções são escassas e difíceis.

Novamente se questiona sobre o que a Srta. May deveria ou não ter feito nos últimos dois anos e meio em que se esforçou para reduzir as diferenças entre aqueles que exigem a saída da União Europeia não importando as consequências, e aqueles que veem o Brexit como um desastre socioeconômico. Sem dúvida, a Srta. May cometeu erros. Mas, como notou Ellen Barry numa reportagem ao The Times sobre a busca da Srta. May por um acordo amigável, “os historiadores discutirão se tal coisa era, de fato, possível.” E a Srta. May, escreve ele, foi provavelmente a pessoa mais indicada para tal: uma servidora pública da velha guarda, sem ideologia ou ambição arrogante.

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Apesar das implicações e consequências do Brexit terem sido analisadas apaixonadamente na campanha do referendo, desde então, a divisão entre os dois campos aumentou, um fato ilustrado até mesmo nas passeatas do último domingo em Londres. Seus cartazes não discutiam detalhes do acordo, o qual é, possivelmente, o melhor possível, mas sim visões diferentes para o Reino Unido: não foi um conflito político, mas um conflito de culturas.

Ao adiar a votação de terça no Parlamento, a Srta. May ganhou algum tempo. Mas não muito, e a um alto preço. Ela espera evidentemente obter algumas concessões na reunião de cúpula da União Europeia de quinta e sexta que poderiam apaziguar os ânimos de alguns membros do Parlamento na questão mais polêmica, a abertura de fronteiras entre Irlanda e a região inglesa do Norte da Irlanda. Ambos os lados estão comprometidos com fronteiras abertas. Porém, como isso significaria manter parte do Reino Unido no mercado comum europeu, os negociadores do Reino Unido e a EU concordaram que isso seria um “meio-termo”, e o Reino Unido permaneceria sujeito a algumas regras da União Europeia se outra solução não for encontrada até o final do período de transição em dezembro de 2020. Para alguns apoiadores do Brexit, isso é um anátema. Mas como Guy Verhofstadt, um membro exasperado do Parlamento da União Europeia tuitou: “tenha em mente que nunca deixaremos os irlandeses na mão. Esse adiamento agravará ainda mais a incerteza de pessoas e empresas.”

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Reabrir as negociações também poderia dar abertura a mais exigências da União Europeia, como o desejo francês de acesso futuro às zonas de pesca do Reino Unido ou às reivindicações espanholas sobre Gibraltar. E os tubarões políticos internamente, de Jeremy Corbyn do Partido Trabalhista a Boris Johnson do Partido Conservador, já sentiram os sinais de fraqueza da Srta. May.

E até agora, não se sabe o que está por vir, um fato que colaborou para uma nova desvalorização da libra. Uma luta interna dentro do Partido Conservador, novas eleições ou mesmo um novo referendo estão sendo considerados. Ainda assim, independentemente do que possa ocorrer, o governo do Reino Unido sob May, Corbyn, Johnson ou seja quem for ainda terá de encontrar uma forma de assinar um divórcio litigioso que enfurecerá uma parte da população, ou abandonar o processo por completo, permanecendo na União Europeia, enfurecendo outra parte da população. A única outra opção, uma saída sem acordo, seria um desastre.

Pelo menos numa questão a Corte Europeia de Justiça ofereceu clareza quando decidiu que o Reino Unido poderia, se quisesse, rasgar sua notificação de saída à União Europeia e, simplesmente, ficar.

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Artigo original – The New York Times: May Has Bought Some Time. At Great Cost
Autor: The Editorial Board