Petrobras não reagirá à alta do petróleo por enquanto, diz Bolsonaro à TV Record

A Petrobras não reajustará imediatamente os preços dos combustíveis, mesmo com a disparada do petróleo no exterior ontem, disse o presidente Jair Bolsonaro em entrevista à TV Record na noite dessa segunda, em mais um episódio que promete ser um teste em relação à governança da estatal e à percepção do investidor sobre a capacidade dela para ajustar preços em meio a pressões políticas.

Bolsonaro disse que a companhia não agiria de forma apressada em meio à incerteza causada pelos atentados terroristas contra instalações petrolíferas na Arábia Saudita, o maior exportador da commodity no mundo, apesar de a tendência natural ser de os preços domésticos caminharem na mesma direção que os preços no mercado internacional. Ele disse que, após conversa com o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, ficou claro que não haverá reajuste imediato. “Como é algo atípico e a princípio tem um fim, ele não deve mexer nos combustíveis”, disse.

O episódio traz à tona lembranças amargas para o investidor quanto à governança e a independência da empresa para fixar os preços dos combustíveis dentro do país. Em maio do ano passado, a greve dos caminhoneiros forçou a empresa a absorver fortes perdas no segmento de abastecimento em meio à escalada do dólar e dos preços do petróleo. Ontem, a Petrobras esteve entre as empresas de energia se beneficiaram da alta nas cotações do petróleo: a ação ordinária fechou em alta de 4,66%, enquanto os papéis PN, os mais líquidos, avançaram 4,52%.

Para o gestor do fundo Cosmos e membro experiente do TC, Pedro Albuquerque, essa situação representa, quiçá, o maior dilema do investidor da Petrobras: a capacidade da estatal de ajustar os preços internos da gasolina e do diesel em linha com a variação das cotações do petróleo e a volatilidade do câmbio. Os preços dos combustíveis estão, em teoria, atrelados às cotações globais do petróleo – uma medida tomada em 2016 para reverter o uso político da estatal, como aconteceu nos governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, do PT. Mas declarações como as de Bolsonaro põem em xeque essa política e devem testar o compromisso do governo com esse modelo, disseram analistas do UBS, liderados por Luiz Carvalho, em relatório nesta segunda-feira.

O petróleo Brent recuava pouco menos de 1% hoje – dando razão a Bolsonaro e a Castello Branco “no sentido de que é melhor esperar” aos desdobramentos da crise no Oriente Médio, disse Albuquerque.