Como a mídia centralizada perdeu seu poder sobre a população

A mídia mainstream como estrutura mediadora – uma forma de inteligência coletiva e coesão social – nunca mais será a mesma.

Em 1977, o repórter Carl Bernstein, famoso pelo caso Watergate, escreveu um artigo sobre seus colegas jornalistas. Mais de 400 deles, ele revelou à revista Rolling Stones, tinham trabalhado com a CIA. Membros da imprensa tinham “oferecido uma gama de serviços clandestinos – de simples obtenção de informações à intermediação com espiões em países comunistas.” E, em alguns casos, líderes de grandes conglomerados midiáticos americanos tinham se envolvido nos esquemas.

A declaração de Bernstein foi apenas o começo do que se tornaria uma grande conspiração entre as agências governamentais e os meios de comunicação.

Esqueça a objetividade – ou a visão da mídia como um controle independente das ações do governo federal.

Em 1979, alguns outros jornalistas intrépidos começaram a expor a extensão da relação incestuosa entre a mídia e a CIA, grande parte da qual tinha aparentemente sido acobertada pelo Church Committee na esteira das audiências do caso Watergate. Os fatos subjacentes à Operação Mockingbird, por exemplo, demonstraram que a CIA teve que fazer pequenos esforços para cooptar a mídia para propósitos de inteligência e propaganda. E, de fato, a mídia tinha sido um animal muito diferente nos anos 1950. Sólida. Hierárquica. Corporativista.

A Blue Church

Teorias abundam sobre por que isso ocorreu, mas uma das mais persuasivas advém do empreendedor serial e teórico social Jordan Greenhall, que postula que a mídia evoluiu dessa forma. Greenhall pensa que a organização da mídia no século XX foi, em grande medida, um fenômeno emergente. Em outras palavras, mesmo se o poder estivesse conspirando contra a mídia, era apenas o tipo de conspiração que seria provável para tal tempo e lugar.

Greenhall chama isso de “Blue Church” (Igreja Azul). Ele diz que ela “resolve o problema da complexidade social do séc. XX por meio do uso da mídia de massa para gerar coesão social administrável.”

Podemos ser céticos quanto às teorias de conspiração, mas é fácil notar que pessoas mais velhas tendem a ser nostálgicas sobre a era Walter Cronkite. Naqueles dias, dizem eles, éramos mais unidos. Salvo um conjunto de eventos como os protestos do Vietnã ou as marchas pelos direitos civis, nossa narrativa cívica geral era, de fato, mais coesa do que é hoje. E nossos antepassados estão certos, mas por razões que, hoje, podem parecer cínicas.

“A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e opiniões das massas é um elemento importante na sociedade democrática,” escreveu Edward Bernays em Propaganda.

“Aqueles que manipulam esse mecanismo oculto da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder controlador de nosso país. Nós somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos são formados e nossas ideias são sugeridas, em grande parte, por homens de quem nunca ouvimos falar. Esse é o resultado lógico da forma pela qual nossa sociedade democrática está organizada. Grandes números de seres humanos devem cooperar dessa maneira se quiserem viver juntos como uma sociedade funcional.”

Embora isso possa nos parecer contrário ao espírito de livre expressão e pensamento, Bernays não está totalmente errado.

“Mídia de massa para controle social”

A ordem social do séc. XX foi construída de uma forma compartilhada e centralizada de inteligência coletiva, de acordo com Greenhall.

A Blue Church é um tipo de estrutura de controle ideológica/narrativa que é o resultado natural da mídia de massa. É uma função evoluída (e não planejada) que, desde o século passado, passou a estar profundamente conectada ao establishment político-democrático e levemente conectada com o Deep State para formar uma força cultural e política dominante nos Estados Unidos.

Greenhall acredita que podemos remeter as origens da Blue Church ao início do século XX, onde ela nasceu em resposta “às novas capacidades de controle social da mídia de massa”. No início dos anos 1950, a Blue Church começou a ter um papel importante na moldagem das instituições produtoras de cultura nos EUA – e, portanto, na opinião pública em geral. Em algum momento na segunda metade do século XX, ela chegou ao seu auge. Mas, escreve Greenhall, “ela está começando a perder sua hegemonia”.

No século XX, a sociedade se tornou muito mais complexa. A informação viajava mais rápido. E para as pessoas se verem mais solidárias umas com as outras, e com um aparato de segurança cada vez maior, todo mundo precisava receber a mensagem correta. A lógica da Blue Church tinha sido: nossa segurança requer tanto um inimigo comum, como uma narrativa comum.

E, em grande parte, funcionou. A única forma de alcançar uma inteligência coletiva compartilhada, todavia, era controlar a mídia. O poder não poderia mais tolerar a ideia da mídia como um conjunto vago de repórteres obtendo pistas de notícias a serem usadas livremente. Jornais, editores, repórteres e leitores teriam de seguir grandes narrativas de modo que as pessoas pudessem viver de forma socialmente coesa.

“A mídia de massa serve como um sistema de comunicação de mensagens e símbolos à população em geral”, escreveu Noam Chomsky em seu clássico de conspiração da mídia, Consenso Fabricado. “É função da mídia distrair, entreter, informar e inculcar indivíduos com os valores, crenças e códigos de comportamento que os integrarão nas estruturas institucionais da sociedade como um todo”. Mesmo se alguém tende a não concordar com Chomsky como eu, esse ponto é atraente.”

Sociedade centralizada

Por que a coesão social é tão importante?

Greenhall nos recorda que, na transição dos séculos XIX e XX, houve grandes mudanças na complexidade social: de agrária para industrial, de rural para urbana. A humanidade foi de cavalos para trens, de carros para aviões, efetivamente “reduzindo” o mundo. Em 1953, Watson e Crick identificaram a estrutura do DNA; Darwin publicou A origem das espécies em 1859. A primeira teoria de eletromagnetismo apareceu em 1864, mas, em 1945, a primeira bomba atômica já tinha sido utilizada. “Esse foi um grande século.”

Segundo Greenhall, a sociedade humana não pode funcionar “sem uma estrutura regulatória adequada ao seu nível de complexidade”. A Blue Church tinha sido tal estrutura regulatória e, portanto, a solução emergente ao problema de manter a ordem social em um mundo cada vez mais complexo.

Mas então surgiu a Internet.

Descentralização e a “Guerra memética”.

Em 1990, as organizações hierarquizadas de mídia começaram a falhar. Uma série de eventos começou a revelar as rachaduras, e se pode argumentar que o aparato de inteligência coletiva do século XX começou a ruir em algum momento entre o uso do modem analógico e a eleição de Donald Trump.

A eleição de 2016 foi talvez a primeira vez que o aparato da mídia da Blue Church estava em total apoio a um candidato e contra o outro. E, mesmo assim, ela fracassou. Hillary Clinton era uma candidata bem-financiada do establishment contra um intruso grosseiro. De acordo com Greenhall, todavia, os oponentes de Clinton executaram uma insurgência digital para provocar o que ele se refere como Religião Vermelha, um movimento populista com ideias retrógradas e ferramentas sofisticadas de comunicação. A Blue Church foi neutralizada. A mídia tinha mudado totalmente. É claro, existe toda sorte de causas distintas mas entrelaçadas do resultado da eleição de 2016: nacionalismo, culpabilização, descontentamento com o establishment e a falta de visão e carisma de Hillary. Mesmo com todos esses fatores, Donald Trump não teria sido eleito sem uma insurgência digital capaz de desafiar a Blue Church. Velhas ideias. Novas tecnologias.

Cito o exemplo da Cambridge Analytica. A grande startup de big data, vencedora aparente na questão do Brexit, fez sua mágica com Trump. O modo de operação da Cambridge Analytica foi colher dados de sentimento de postagens nas mídias sociais; depois, compará-los com dados contra perfis de personalidade mais poderosos usados por psicólogos ao redor do mundo: os Big Five. Encontrando os padrões do Big Five nos dados, a Cambridge Analytica poderia então minar as mensagens de campanha que poderiam retornar para quem as tinham publicado originalmente.

Mas a Cambridge Analytica poderia ser vista como centralizada. Memes do “Kekistan” – produzidos pelos chamados “Autistas of Kek” – eram uma mistura talentosa de gozação e desinformação contra Clinton. Junte alguns desses insurgentes com produtores estrangeiros de notícias falsas, e o resultado foi a vitória para o famoso bilionário que se tornou amado tanto pelo americano raiz, como pelos eleitores cansados da mídia Blue Church.

Um estrategista brilhante previu, se não alimentou, a insurgência da Religião Vermelha em 2015. Em um artigo para a OTAN, Jeff Giesea escreveu:

“A guerra mimética pode ser útil no nível de grande narrativa, ao nível de combate, ou numa circunstância especial. Ela pode ser ofensiva, defensiva ou preditiva. Ela pode ser usada independentemente ou em conjunção com esforços cibernéticos, híbridos ou convencionais. O  campo de batalha online da percepção apenas crescerá em importância tanto na guerra como na diplomacia.”

A guerra memética poderia ser travada contra a ISIS ou o Comitê Democrática Nacional.

A mídia mainstream como estrutura de mediação – um meio de inteligência coletiva e coesão social – nunca mais será a mesma. A descentralização significa o controle popular de tornar a mídia um combate de diversos pelotões: cidadãos investigadores, verificadores, troles, criadores de notícias falsas e outras novas mentes dinâmicas. Esses podem se unir ou dispersar em tempo real.

A evolução continua

Pense no New York Times. Imagine-a como um tipo de autômato, poderoso, mas rígido. Ela foi rodeada por milhares de drones. Os drones estão nervosos. O NT tenta em vão se livrar deles com seu bastão, mas não é o bastante para todos.

O que isso significa para a coesão social?

Depende. Mesmo se você pensa que Greenhall está sendo muito cínico ao concluir que o governo e a mídia estavam fadados a se unirem no século XX, você ainda poderia pensar que o país precisava algum nível de coesão social. A coesão social é tanto uma forma de lidar com a complexidade como uma forma de manter alguma unidade em face da entropia cultural – valores, crenças e assim por diante tendem a fraturar as pessoas. Mas a coesão social por grandes religiões seculares – preservando grandes estado-nação – pode não ser mais possível. (E, muito menos, necessário).

Independentemente do se pensa sobre como o futuro pode ou deveria ser, estruturas da mídia hierárquica não oferecem mais coesão social. Conhecimento e informação não mais viajam em fluxos bidirecionais através de cadeias de autoridade e especialidade. A mídia tem sido lateralizada. Informação e desinformação querem ser livres. Coesão social deverá vir de meios diferentes, como dentro de unidades menores de organização social. A mídia não é apenas uma estrutura mediadora que está crescendo. Crescemos com alguns pilares sob as quais a civilização dependeu, evoluindo mais ou menos, dado o tempo de Galileo.

Artigo original: How the Centralized Media Lost Its Power over the People
Autora: Max Borders

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